sábado, abril 13, 2013

Seletividade

Um dia esse momento iria chegar. Trocar a falsa sensação de um milhão de amigos pelos poucos e bons, a pista cheia e barulhenta pela música do vento que bate à minha janela enquanto leio um bom livro, o salto pela sapatilha, a cantada de quinta pela voz do Sinatra ou aquele poema do Leminski, qualquer guloseima por um lindt, assim por diante.

Ando eliminando certos convívios nocivos faz tempo. E hoje estava pensando que, por coincidência, eram pessoas de mesmo nome. Algo como evitar laços fraternos com Danielas ou afetivos com Leandros - não se chamam assim, mas manter a identidade secreta faz parte de evitar explicações que vão desde o fatores objetivos, como confiabilidade, e subjetivos, como a preguiça (algumas relações datam, fazer o quê?), àquela mania de tratar como Radiohead quem eventualmente me tratou como Coldplay (a princípio e por princípio, não sei ser indelicada. No entanto, nas minhas veias não corre sangue de barata, e quando percebo determinados condicionamentos meus e dos outros, consigo tranquilamente fazer uma grande viagem de ida sem volta para Blaselândia. Tudo isso, claro, é ação e reação).

Ao mesmo tempo, venho me surpreendendo com a tolerância trazida pelos últimos anos. Outro dia, uma velhinha no salão interferiu na  minha conversa com a manicure. A moça, que eu acabara de conhecer, me perguntou se eu tinha filhos. Eu brinquei: sim, de quatro patas. Imediatamente, e sem que eu pedisse, veio o palpite. Ouvi que as pessoas como eu estavam perdendo os valores de família, trocando crianças por cães. Eu olhei para ela e falei: no meu caso são gatos e se chamam Alice e Serge. Não satisfeita, soltou que gato era traiçoeiro e que achava o fim eu dar nome de gente para bichos. Assim. Eu retruquei que os meus eram extremamente carinhosos. 

A velhinha, então, quis saber se eu era casada. Respondi que não mais. Ela versou, mais uma vez, que os jovens de hoje - gentilmente referindo-se a mim - desprezavam valores essenciais, sendo que essencial naquele momento seria ficar longe de gente intransigente e grosseira como ela. Derepente, o discurso da rainha foi interrompido pelo noticiário na TV. Mudando de assunto, ela comentou algo sobre a boa fase Atlético, aguardando a minha reação.

-  Como a senhora pode supor, sou cruzeirense. 

Honestamente, achei que isso seria motivo para nossa não afinidade acabar por ali. No fundo, estava aliviada por conseguir responder educadamente a tanta bobagem. Foi quando ela conseguiu que eu esboçasse uma cara feia, voltando à estaca zero.

-  Por que você não adota uma criança? 
-  Porque a minha vida está bem assim, ainda que eu ache um ato muito bacana e que deveria ser facilitado pela lei. Tenho muitos amigos gays, por exemplo, que seriam pais ótimos e amorosos e há mesmo muita criança precisando de um lar. O que atrapalha é a "burrocracia" brasileira.

A nem um pouco doce velhinha começou a se transformar numa víbora e eu me lembrei de um texto do Dalai Lama falando sobre a crueldade dos chineses contra os tibetanos... mas peraí, eu não sou o Dalai Lama! Ela bufou que gays nunca dariam ótimos pais, que na bíblia...

Foi quando eu não a deixei continuar. 

- Olha, dona Esther (ou qualquer nome de velhinha, pois o verdadeiro não me recordo agora), é melhor a gente não prosseguir em nossa conversa. Está claro que eu não penso como a senhora, nem sou da maneira da sua geração e por respeito à sua idade, não vou me alterar porque eu não faço a menor distinção entre homossexuais e heterossexuais. O que eu sei da bíblia é a passagem do "amai-vos uns aos outros", dos tempos em que eu era católica,  minha avó era viva e isso faz um bom tempo.  

Ela ficou muda, passou a conversar com a filha da dona do salão sobre o filho dela que era um ótimo partido (fiquei imaginando o tipo). Escolhi um esmalte vermelho "bem alegre" (em outros tempos, teria dito em alto e bom som "bem biscate"), agradeci à manicure e cedi o lugar à velhinha, como costumo fazer. 

No caixa, sem graça, depois de ter assistido àquele festival de inconveniência, a filha da dona do salão me pediu desculpas baixinho.

-A dona Esther é assim mesmo, não leve à mal.

Enquanto passava o cartão, sorri para ela. Observei minhas unhas impecáveis como há muito não ficavam. Questionada se queria marcar na semana seguinte um horário, limitei-me a dizer que ligaria depois. Perder um tratamento de beleza tão bom é sempre triste, especialmente para quem tem cutículas sensíveis, mas não é o fim do mundo. Faz parte da lista de seletividade.

2 comentários:

  1. Eu sempre te achei seletiva. Uma seletiva com coração enorme! Talvez por isso seus critérios fossem mais abrangentes.

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    1. Para se pensar...obrigada pelo seletiva de coração enorme.

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