sábado, maio 08, 2004

Dia das Mães

Durante boa parte dos meus 27 anos ouvi minha mãe dizer que não é sócia da Cemig, que meu quarto devia ser mais organizado, que eu deveria ter levado sombrinha, pois iria chover. Ela era quem me obrigava a tomar o xarope horroso quando eu estava doente, ficava na cola quando eu perdia média, colocava frutas na merendeira e sempre perguntava porque eu não a havia comido. Minha mãe é do tipo que briga se eu não aviso para onde eu fui ou dou previsão de que horas chego e, brava, faz questão de lembrar que enquanto eu viver na casa dela, tenho que me adptar a suas regras. Alguma semelhança com outras ou todas as mães é mera coincidência.

Não há mãe igual a minha, que contou a história da Moura Torta um milhão de vezes, fazia "aviãozinho" quando estava deitada na cama e eu pulava no colo dela, arrumava meu prato fazendo carinhas para eu comer legumes e verduras. Minha mãe deixava eu pegar suas roupas mais bacanas, quando brincava de teatrinho com minhas amigas e se eu e elas brigássemos por algum motivo, fechava os olhos fazendo contagem regressiva para fazermos as pazes. Ela organizava as festas de aniversário mais criativas e sempre me deu presente fora de época. Minha mãe me cobria à noite fazendo cabaninha, para que eu ficasse mais aquecida. Minha mãe me deu uma irmã maravilhosa e me ensinou como tratá-la com respeito e carinho. Só ela nos chama de morceguinhos, fazendo com que aquele bicho feio se aproxime de um gatinho ou um coelhinho. Minha mãe gosta do mesmo tipo de música que eu e sempre falou abertamente da tríade "sexo, drogas e rock and roll", não para fazer o gênero "personagem de matéria do Fantástico", ou seja aquela aproximação forçada entre pais e filhos. Ela é autêntica e pronto. Tem uma tatuagem com o nome dela escrito em hebraico, embora não tenha a menor ligação com o Oriente Médio. Minha mãe sempre deixou que meus namorados dormissem na minha casa e eu na casa deles porque sempre confiou na educação que me deu. Ela me empresta grana quando eu estou no aperto. E quando estou mais apertada ainda, diz que eu não preciso pagar. Com ela aprendi a importância da generosidade e da delicadeza. Minha mãe virou meu pai por uma dessas estranhas ciladas em que a vida nos coloca. Também passou a ser filha, uma vez que precisa de cuidados e puxões de orelha.

Minha mãe tem milhares de filhos postiços, que a adotaram por afinidade. Talvez porque por trás do jeito descolado e roqueiro, existe a mãezona meio personagem de Almodóvar, meio personagem de Veríssimo e até de Woody Allen. Só que ela tem sua própria história, seu próprio roteiro e faz que com todos os elogios citados por mim sejam poucos. Quero ser filha ainda por muitos e muitos anos. Não sei se encarnaria tão bem quanto ela o papel de mãe.

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