terça-feira, agosto 31, 2010

Be Gentle With Me

*Atenção: esse post pode desagradar os rapazes, mas é um desabafo. Então, vocês nem precisam ler para ficar divergindo no comentário, ok?

Terça é dia do meu orixá, Ogum. Terça é dia da coluna que assino n'O Tempo. Terça agora também é o dia da minha terapia. Eu sempre saio da terapia pensativa. Por vezes melancólica, por vezes otimista. Mas hoje saí colérica. Nada contra minha psicanilista. Ao contrário. As sessões tem me feito enxergar o que ignorava ou fingia não ver.

Minha última frase foi "não é fácil ser mulher". Ela concordou.

Puxando esse novelo: eu disse que tenho observado o quanto nós, mulheres, estamos precisando de um pouco de gentileza. O quanto é injusto estarmos desde sempre preparadas para uma nova relação. Por mais que tenhamos sido traídas, abandonadas, enganadas. Por mais que não achemos que vale a pena tentar de novo ou passemos a agir como os homens, estamos, para minha tristeza, preparadas.

Eu poderia achar que isso é um grande mérito. Porém, acho de uma sacanagem sem precedentes. A regra é clara: brincamos com nossas bonecas sonhando com a casinha na vida adulta. Ensaiamos o primeiro beijo esperando recebê-lo de um garoto especial, consideramos aquele ficante um possível primeiro namorado, o primeiro namorado a inesquecível primeira transa. O compromisso, um laço para toda vida. E, ainda (ingenuamente), sem os percalços.

O mais inacreditável é que se nada disso dá certo, reinventamos o maldito script porque nossa cabeça é um roteirinho de comédia romântica. Mesmo as mais independentes, as que pegam geral, as lindas que não precisam fazer nenhum esforço para conquistar...Todas as mulheres estão preparadas, o tempo todo.

Hoje achei essa constatação revoltante.

Eu precisava, então, processar essas observações depois que meu tempo acabou. Poderia ter descido a Avenida do Contorno à pé, falando sozinha, como uma louca.

Resolvi pegar o circular, passar no banco, raspar o tacho.

Então, entra um casal, de meia-idade. A mulher com duas sacolas pesadas e o homem passa pela roleta. Com dificuldade de tirar o dinheiro, ela pede ajuda para que o troglodita segure uma das sacolas (ele, obviamente, está de mãos abanando). Ele volta resmungando como o Zé Buscapé e ela senta ao lado dele sem graça.

Tive o ímpeto de dizer umas verdades para ele. Surtar no Circular. A plateia era pequena mesmo.

Desisti, contudo não consegui evitar o olhar "with lasers" para aquele grosseirão ao descer no meu ponto.

Atravessando a Praça, uma menina novinha chorava no banco e o namorado com cara de banana não parava de argumentar. Quis perguntar o que ele havia feito de errado com ela. O moleque, evidentemente, não a merecia.

Mas antes que minha cabecinha ficasse fabricando algum tipo de ficção, por mais que a cena do ônibus me parecesse bem clara, tentei focar nas vitrines que eram uma a uma fechadas na terça seca, na terça insana.

Eu sei que pode parecer um ímpeto de fúria. Daí, resolvi ouvir músicas bem delicadas e ficar na varanda tomando uma cervejinha gelada e o ar fresco para arejar também as ideias.

Não me saem da cabeça certas perguntas: ainda existem homens gentis? Não falo dos que abrem a porta do carro para as mulheres, supreendem com um jantar romântico...O padrão é bem menos exigente. E eles nem parecem notar.

13 comentários:

  1. Pois é, amore... tenho certeza que minha vida se encaixa neste post, então, acho que as mulheres devem falar sobre isso, inclusives com seus filhos... e detesto os idiotas hipocritas que usam camiseta: 'gentileza gera gentileza' e nunca praticam...

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  2. Ludmila minha gentil filha, gentileza é coisa para "maluco" como o Gentileza que vagava e pixava os muros do Rio e os mesmos foram pintados com uma grotesca tinta cinza cobrindo as delicadas palavras. Elas estã lá e aqui.Continue gentil. No mais é fazer a Pergunta de Kaketa: Será que vale? Te amo minha boneca russa!

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  3. Pois é Ju, abaixo a hipocrisia! Ser atencioso não arranca pedaço, né? Ao contrário: dá uma sensação de paz.

    Mammys, te amo muito. Ser gentil é mesmo um longo caminho.

    Beijocas!

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  4. Tininha9:49 PM

    Gostei do q vc escreveu! Acredito q tem sim pessoas gentis. Temos só q lembrar q as permissões partem de nós mesmas. Já falei sobre este tema tb na minha análise. Rs... É neste ponto, qd reconhecemos os nossos limites, q tudo começa a mudar . . . A gente só não pode esquecer do q queremos e do q nos permitimos! Bjo, Tininha

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  5. Você tem toda razão Tininha! Falei sobre isso também na terapia...Beijo grande!

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  6. Ludimila,
    sou um quarentão e já pertenci a uma época que valorizava-se muito a gentileza, no meu caso, ser cavalheiro.Resolvi manter essa herança.Porém observo que muitas mulheres hoje, não valorizam esta qualidade.Quantas vezes fui gentil e me senti um fantasma!
    Abraço.

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  7. Ludj, querida, infelizmente você tem razão. Digo sempre que nós, homens, não merecemos vocês. (Eu incluso - não vou tentar soar como a exceção à regra, pois não sou). No entanto, esta busca eterna pelo(a) companheiro(a), arrisco dizer, não é exclusividade de vocês; faz parte da natureza humana.

    O problema é que, ao encontrarmos a companheira, inevitavelmente fazemos alguma estupidez que a magoe - e, com isso, voltam os dois para a constante busca pela nova decepção.

    Beijo grande.
    Pablo

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  8. ''A gentileza é a essência do ser humano. Quem não é suficientemente gentil não é suficientemente humano'' infelizmente faltam pessoas gentis e mais ainda atitudes gentis. :) Uiara

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  9. João, sei que a atitude gentil num mundo grosseiro parece inútil e até esquizofrênica. Mas é um exercício. Essa coisa também da "nova mulher" (nem tão nova assim) assustando o homem na minha opinião é uma bobagem. Todas nós gostamos de cordialidade. As que não respondem sinceramente estão fazendo pose de duronas e começaram a se desacostumar com o tratamento adequado. Claro que há grossos dos dois lados, mas no âmbito dos relacionamentos, a balança anda muito desigual. Obrigada pela visita! Beijos!

    Pablo, obrigada pelo carinho de sempre e a franqueza. Reconhecer nossas pequenas faltas (nós mulheres temos algumas bem particulares) já nos ajuda um bocado né? Beijo grande.

    Kikinha, falou e disse. Atitute gentil é o melhor exercício para nos tornarmos pessoas melhores. Beijos

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  10. Acho que a gentileza é uma questão de caráter. E acho também que não se trata de homem e de mulher, mas sim do ser humano, como disse a Uiara.

    Beijo prima.

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  11. Com certeza gentileza vem de berço e caráter, Primo. Embora eu ache que qualquer pessoa deve se esforçar para fazer valer a educação que recebeu, estive questionando no âmbito dos relacionamentos: dos caras que "somem sem explicação" como se tivessem achado as meninas numa lata de lixo, dos que nos abordam na balada de maneira grosseira e por aí vai... Precisamos reiventar nossas relações, valorizar o que realmente importa. Beijo grande!

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  12. Acho que ambos somos imperfeitos, mas a mulher como boa responsável pela continuidade de uma família sente muito mais a falta de gentilezas do homem. E não é que sejamos loucas; apenas acreditamos que se o mundo tivesse mais pequenos atos de bondade, aqueles considerados mais graves seriam muito mais fáceis de serem contornados.
    Talvez um dia os homens percebam que o que queremos não é uma declaração de amor com rosas caindo de um helicóptero... que lindo seria. Mas preferimos a simplicidade de um hábito de pequenos altruismos no nosso dia a dia!
    Adorei o texto!!!

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  13. Pois é, Laura. Matou a charada! Obrigada pela visita! Abraços.

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