quinta-feira, novembro 27, 2008

Isso são horas?

Lembrou-se da figura clássica do marido insatisfeito, que sai do serviço e vai direto para o bar. Nem sempre sai acompanhado, embora possa encontrar algum conhecido. Não necessariamente quer sentar-se à mesa para bater um papo. Deseja, na maioria das vezes, algo bem forte, um trago, que o faça esquecer, naquele breve momento, da rotina sem graça, das reclamações da mulher, das contas, dos filhos adolescentes malcriados, da calvície, da falta de iniciativa, de grandes idéias que tivera quando jovem.

Ele olha fixamente para o vidro engordurado que emoldura o balcão e tenta escolher entre o torresmo e o bolinho de mandioca. Ambos estão passados, porém a triste figura decide mastigar algo com muito molho de pimenta. Assim, talvez, não deva sentir o gosto amargo na boca que lhe parece bem menos agradável. Pede outra dose, olha para o relógio e planeja não chegar em casa durante a novela. Se a mulher ficar suspirando pelo Tarcísio Meira, melhor para os dois: não há conflito e, mais importante, não há conversa. Sabe que deve passar na padaria e, como de praxe, vai se esquecer de levar o pão doce do café da manhã do dia seguinte. Será observado com reprovação, ainda mais com aquele hálito quente e forte.

Lembrou-se de que não tem nada a ver com a vida medíocre daquele homem cuja falta de brilho nos olhos desconcerta qualquer pessoa. Entretanto, ao contemplá-lo em sua memória, pôde se não compreendê-lo, não julgá-lo de forma tão cruel. Concluiu que "em caso de emergência, suas portas encontrariam-se destravadas e as saídas desobstruídas". Contudo ante ao inconclusivo diagnóstico, o terapeuta protelaria a sua "alta" e recriminaria (profissionalmente) suas eventuais fugas desastradas e mal planejadas. O homem, assim, virou um fantasma.

(De vez em quando aparece para tomar de assalto os pensamentos).

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