segunda-feira, janeiro 09, 2012

O efeito defeito

A maior generosidade que uma pessoa desorganizada tem consigo é a de encontrar barrinhas de chocolates meio amargos e hall's extra-fortes intactos nas bolsas e bolsos. Há também, no meu caso, sempre um guardanapo com alguma poesia, o ensaio de uma crônica e o exercício da ficção.

Para Leminski, distraídos venceremos. Não pertenço a esse grupo, mas entendo o que é estar numa espécie de descompasso. Os focados administram bem as horas, os incontroláveis cadarços de all star, os sinais de trânsito para que os outros se atrasem, tropecem e quase sejam atropelados...

No caso da minha turma, que não acha na gaveta aquela camiseta, não se lembra que no dia 10 vence o cartão (porque, obviamente, não faz ideia de onde está o boleto) e só desperta depois da enésima badalada do "soneca" no celular, o placar parece sempre favorável a quem anda de roupa engomada, paga em débito automático e levanta todo dia às sete.

Mas é apenas uma impressão. Imagino que os focados, os organizados tenham lá suas agruras. Uma delas é esperar muito dos outros, que podem ser justamente os distraídos e desorganizados. E se existe algo em comum é a vontade de não ser tão desse jeito seguindo a vida à risca ou no rabisco.

Todo ano eu compro uma agenda. Todo ano escrevo nessa agenda meus dados pessoais, minhas alergias, em caso de emergência a quem devem procurar. Uso o calendário para calcular os finais de semana de plantão, as alternâncias de feriados, meus ciclos menstruais. Consigo, no máximo, preencher uma meia dúzia de compromisso nos primeiros meses. E depois? Sei lá, ela cai no buraco negro da gaveta e eu nem a procuro.

No entanto, sou perseverante. Passei a usar notas no celular, mais alarmes. "Agora vai", penso. Acontece que sou traída por algo muito importante que eu devia fazer naquele instante. "Esse compromisso eu vou memorizar"...e aí? Tudo arruinado, como o feng shui que pretendo implementar no quarto há tempos, eliminando tudo aquilo que não me serve mais.

E eu nem tenho mais desculpas para dar quando ouço: "como assim você nem sabe para onde irá nas férias? Faltam poucos dias". Olhar tudo em cima da hora sai mais caro; posso nem conseguir fazer um programa legal, por aí vai...Conheço todos os riscos que corro. Acho o fim da picada continuar assim perdendo oportunidades, prazos, trens... Não perco, contudo, a esperança. Daí a insistência em agendas, despertadores, notas eletrônicas e qualquer lembrete em que faça-se a luz.

E única diferença para a dona do caos de ontem para o mesmíssimo de agora é que passei a olhar para essa minha falha com menos rigidez. Talvez a culpa seja dos chocolates, drops e guardanapinhos de papel com inspirações.

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