domingo, julho 31, 2011

Desassossego

Não é incomum acordar com uma música na cabeça, que talvez tenha sido a trilha de um sonho ou vários.
Não é incomum acordar com uma poesia no pensamento, algo que traduza o despertar. Esse aí que vem às vezes antes do alarme. Uma espécie de sacodidela existencial.
Talvez o problema tenha sido deitar-se pensando na cena de um filme. E na possibilidade de ter sua própria "Rosa Púrpura do Cairo". Mas há um lado escuro que puxa o tapete do sonhador e fica insinuando que só é possível reproduzir do cinema uma ação do tipo "táxi, siga aquele carro".
Sim, sempre houve esse desejo meio infantil de pegar o carro amarelo. E não há um porquê.
Subitamente, alguns fragmentos de dias atrás se misturam, confundem. A certa altura, na alta noite, no caminho que ninguém caminha. Estava alta. Entre heinekens e beijos: medos.
Ditos isso no plural, é importante separar o medinho bobo daquele discutido em intermináveis sessões de terapia.
Não deveria haver desassossego.
Só nas bem traçadas linhas de Pessoa.

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.



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