sábado, julho 30, 2011

Bilhete

Em silêncio, abri a janela do quarto e fiquei olhando para a rua. Por algum tempo, eu amei o que vi bem baixinho. Vontade de ficar...

Uma amiga me disse que eu vejo São Paulo como o personagem de Owen Wilson vê a Cidade Luz em "Meia Noite em Paris". Tudo me parece como se eu estivesse em 2006. Eu sei, não foi só riso. Teve saudade também. Muita. Mas essa coisa contraditória tem esse nome mesmo: amor. E começa com paixão. Esse fogo me arde com frequência.

Foi aqui que me perdi nas ruas mais diferentes, ouvindo sotaques e outros idiomas. Foi aqui que eu ia para o cinema quase todo dia. Foi aqui que tive que conviver por mais tempo com não ouvir o som da minha própria voz.

Eu disse anteontem para um cara que eu estava sempre pronta para ir embora. Eu tenho tanta habilidade de fazer as malas. Uma abertura à mudança repentina talvez (embora eu relute de vez em quando). E nos últimos cinco anos, só de endereço, meu "ir e vir" passou por sete lugares. Dizem que sete é conta de mentiroso, no entanto teve a casa da mamãe, o porto-seguro, por repetidas vezes. E de lá saio de novo, em alguns dias.

Só que era para cá que eu queria vir. Eu queria voltar. Eu queria amar baixinho, amar aos berros São Paulo. Eu queria concluir esse amor interrompido por um outro, tão importante que me levou para o altar (este sim teve começo, meio e fim).

Deixo, então, um bilhete, um bilhete de amor, do Mário Quintana. O amor é urgente, como também escreveu outro poeta caro, o Eugénio de Andrade.

BILHETE

Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

tem de ser bem devagarinho,
amada,

que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.

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