sábado, abril 02, 2011

Soltando as amarras

Embora eu goste de debates, encontros com escritores e pensadores, nunca fui uma pessoa oficineira. Sempre considerei o oficineiro um faficheiro em sua essência...antes que isso soe um preconceito, explico: sempre escolhi as práticas nos tempos de faculdade. Havia a turma da UFMG, que fazia imersões no Festival de Inverno, que se graduava com um ingresso no mestrado porque devorava disciplinas paralelas.

Eu não. Conciliava dois estágios e cursava comunicação à noite. Queria aprender logo a ser jornalista. Com o diploma na mão, percebi que de interessante mesmo na graduação, só mesmo as aulas de filosofia, cinema, teatro, sociologia e ética. Confesso que me frustrei com minha pressa assim que recebi o canudo.

Hoje vejo que foi apenas uma escolha. Quem seguiu na direção oposta não necessariamente solta foguetes.

Dei essa volta para dizer que, quando minha amiga Carol me chamou para fazer a oficina de escrita da Márcia Tiburi, não pensei duas vezes. A vontade de sempre aprender só cresce em mim a medida que os anos passam e a Márcia, pelo que já li e vi na TV, sempre me pareceu interessantíssima.

E digo, após quase sete horas de convívio, que ela é mais incrível ainda pessoalmente.

A filósofa, escritora e mãe da Malu me ganhou nos primeiros momentos da conversa (com a turma bastante heterogênea), assim que disse que escrever era de uma intimidade extrema (mais até do que sexo). Depois, veio a discussão da apropriação da história dos escritores que são nossas referências. E, ainda, a impagável "lupa literária" que já adotei.

Sobre a Lupa: pense numa pessoa que possua uma característica marcante a qual pode, inclusive, irritar profundamente (um pedante, por exemplo). Transforme-a num personagem e, voilá, você a verá com outros olhos...

As práticas foram ótimas e desafiantes. Houve quem brigasse com o papel em branco e quem se agarrasse à primeira ideia. De algum modo, acho que todo mundo ali sofreu com pouquinho. Medo de ter escrito algo ruim, de ler o que escreveu para o público, de não conseguir de fato se expressar.

O fator tempo foi outro algoz. Como criar em 15-20 minutos um microconto? Eu consegui não pelo talento, mas porque o cotidiano jornalístico (aquele para o qual me preparei desde os 17 anos) me impõe limites e prazos.

Fiquei pensando que para mim o tema livre, ao contrário do que fizemos, era o mais apropriado. Ele intensificaria meu sofrimento (necessário) na busca das palavras. A capacidade narrativa é importante, observou a Márcia. Ela não pode engessar, constatamos.

Meus contos falavam de uma passagem que me ocorreu pouco tempo atrás na fila de cinema e do dia em que a Mariana se foi.

Anotei várias indicações de livros e adoraria ler todos eles, até os que tratam de temas mais distantes do meu interesse.

Enquanto a turma falava da Branca de Neve e toda a crueldade velada dos clássicos infantis, me lembrei do móbile de bruxas da Disney que eu ganhei quando tinha uns seis anos e de como, não sei porquê, eu gostava delas.

Caminhei pela rua da Bahia até a Savassi. Quis almoçar algo tão delicioso quanto aquela experiência, ficar sozinha com meus pensamentos e a taça de vinho.

Olhei as pessoas de outra maneira. Saquei meu bloquinho e sorri ao ler uma frase da Márcia: "para eliminar uma tristeza, desenhe um elefante".

Continuei fazendo exercícios extra-classe e, drummondianamente rabisquei: "gastei ideias com palavras que os dedos não queriam digitar. é a poesia da vida que foi dar uma voltinha".

Quando a sobremesa chegou, eu a dividi (sou do tipo que acha que existem as pessoas que dividem e as que não dividem a sobremesa). Pedi para a garçonete embalar a outra metade da torta de limão para minha mãe.

Voltei feliz para casa.

6 comentários:

  1. Que lindo Lud! Amei, foi demais.
    Faremos outras, né?
    beijos.

    ResponderExcluir
  2. Carol, com certeza sim! Adorei seus contos na oficina. Muito obrigada por lembrar de mim e me presentear com esta gentileza.

    ResponderExcluir
  3. adorei morro de inveja de quem faz essa oficina. Aliás, sou fã da Márcia tiburi. Sou professor de português e sempre uso textos dela. da revista cult.

    ResponderExcluir
  4. Que bacana! Obrigada pela visita!

    ResponderExcluir
  5. Mega me identifiquei ;) congrats pelas palavras.

    ResponderExcluir
  6. Oi Karol, obrigada pela gentileza! :)

    ResponderExcluir