domingo, maio 29, 2011

Saída pela direita


Nunca gostei do Leão da Montanha. Quando ele tinha que tomar uma decisão na vida ou a coisa apertava para o seu lado, sacava uma "saída" pela direita ou esquerda. Não sou do tipo que foge por conveniência ou que cultiva a "invisibilidade" pela covardia de dizer, por exemplo, 'não vou te ligar nunca mais' e 'quando te encontrar na rua, fingirei que não te conheço' (indo rapidamente para a calçada oposta). E, talvez por este motivo, não consigo respeitar quem o faça (entender já desisti há muito).

Prefiro que tenham a exata imagem do que sou. E como todo mundo, nem sempre um docinho, uma flor de formosura. Já disse para um rapaz que não daria meu telefone porque não estava afim de "render". Na verdade, eu nem devia tê-lo beijado e, na noite em questão, eu bebera apenas água. Meu bom senso estava no modo ativado, porém não houve química. Pior, o papo do moço era raso como um pires. Uma amiga me disse que eu dou tempo demais para saber que o sujeito não vale a pena. No entanto, acho melhor não fazer as pessoas desperdiçarem expectativas. Eu não dei o telefone errado para o rapaz ficar chateado, não dei o certo para ele tomar um fora e nem saí correndo como o Leão da Montanha.

Escapar é realmente muito mais fácil. Fica aquela aura de mistério, a pergunta no ar, a porta entreaberta... Não apenas eu, como muita gente que conheço já esperou o telefone tocar no dia seguinte, uma semana depois, até se dar conta de que um mês havia passado e aquilo que foi bom ou divertido num determinado momento, não se repetiria. Ouvir, na lata, um "eu queria ter você, mas acho que já vou andando" com a maior tranquilidade do mundo só mesmo ser for do Ira!. Ainda assim, eu prefiro a objetividade que também pratico nessas ocasiões.

As pessoas gostam tanto da saída de emergência nos tempos atuais que aplicam a ação em todos os setores da vida. Ninguém almoça mais na mesa com a família para não ter que conversar. E aí um vai para o computador, o outro para TV e o terceiro fica ali no "bloco do eu sozinho" da copa. E vai ver que até a avó está no Facebook e a mãe arrumou um namorado no Badoo... Depois, fica chorando pitanga na terapia porque é cada um na sua. Quando foi que o mundo passou a se esquivar por demasiado?

Não é incomum notar uma criatura, que já tenha o diploma pendurado na parede de casa, dar uma de Leão da Montanha diante de certas responsabilidades no trabalho. Ainda mais se for em equipe. "A minha parte eu fiz" ou "essa orientação você não me passou". Espere mais que o óbvio dessa pessoa que se disse "proativa" no currículo para comprovar. Sair de cena de modo que seja conveniente apenas para um ator coadjuvante como esse nem estraga o enredo, porque há sempre a improvisação e o talento de quem segura as pontas.

Mesmo que fugir ou tornar-se invisível pressuponham atos, eu só consigo pensar que revelam uma irritante falta de atitude, de personalidade. Uma espécie que vai tornando-se óbvia, superficial e opaca. Se não precisa e não quer convívio - fora das centenas de seguidores do próprio Twitter-, vai viver na ilha então! De preferência na ilha de Lost.

Isso tudo que eu tenho percebido reflete uma dose cavalar de egoísmo geracional. Não é "self preservation" fugir de alguém que durou uma noite e que se diferencia das demais apenas porque pode te surpreender. Não é validar sua incompetência se o resultado que o seu chefe esperava ficou aquém da sua capacidade.

Eu acho que a geral devia tentar sair desse armário existencial, cheio de proteção, "ovomaltino e leite com pêra" para ser mais verdadeira, com todas as flores e espinhos que possui.

2 comentários:

  1. Falo e disse, tudo que eu queria e não conseguia relatar.
    Adorei

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  2. Obrigada querida! Beijos

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