quarta-feira, dezembro 12, 2007

A Belo Horizonte que eu não amo

Minha cidade completa hoje 110 anos. Nas capas de jornais estamparam cartões postais, como a Avenida Afonso Pena, a Serra do Curral e a Pampulha. Belorizontinos ilustres e os que fazem parte da série "desconhecidos que fazem a diferença" foram personagens de reportagens nos cadernos de Cidades, Cultura, Economia, Esportes, Política. Crônicas exaltaram a qualidade de vida da cidade, a hospitalidade de quem vive aqui...Eu não discordo de nada disso, que fique claro, porém acho que agora consigo enxergar claramente na Belo Horizonte querida aquela que não me faz vontade de sumir e jamais voltar.

Eu não amo a Belo Horizonte que liberou a construção dos prédios horrendos do Belvedere, que impedem a vista das montanhas e a circulação de ar. Não amo a Belo Horizonte que não cuida de suas calçadas, deixando-as como queijos suíços e prejudicando o acesso dos portadores de deficiência, que utilizam as cadeiras de rodas, e até mesmo das madames, que quase perdem o salto e torcem o pé. Eu não amo a Belo Horizonte que demole as casas do início do século 20. Amo menos ainda a Belo Horizonte que permite que aquelas fachadas sejam conservadas meramente para enfeitar edifícios moderninhos. Não amo a Belo Horizonte dos cidadãos que não limpam o cocô de seus cachorros nas ruas, não exigem lixeiras da Prefeitura e lamentam que a capital não seja mais "a Cidade Jardim". Eu não amo a Belo Horizonte que faz questão de ser, no pior sentido, provinciana e achar que isso é motivo de orgulho. Não amo a Belo Horizonte que não tem bons shows, de peso internacional, ou concertos de graça nos parques. Amos menos a Belo Horizonte que não comparece a esses shows quando raramente acontecem. Não amo a Belo Horizonte que cogitou a Lei do Silêncio. Não amo a Belo Horizonte que ainda não possui rodízio para desafogar o trânsito caótico. Não amo a Belo Horizonte que recebe quase todos os produtos culturais- filmes, espetáculos de dança, peças e shows - bem depois do chamado "eixo". Não amo a Belo Horizonte dos maxi e mini guetos: das Patricinhas "ooooi, tá zóia" e dos Mauricinhos marombeiros com corte de cabelo "bunda de pato", dos neo-hippies, dos surfistas de várzea, dos indies que acham que moram em Londres, entre outros. Não amo a Belo Horizonte dos três beijinhos para casar, como se casar fosse a grande meta na vida de alguém. Não amo a Belo Horizonte que não trabalha com cartão de débito no comércio. Não amo a Belo Horizonte que "ama BH radicalmente". Não amo a Belo Horizonte que mal conta com um aeroporto para se fugir para muito longe em caso de emergência. Não amo a Belo Horizonte dos que fecham cruzamento, da falta de sincronia dos sinais, da falta de placas indicativas de ruas, avenidas e bairros. Não amo a Belo Horizonte dos taxistas sem guia de ruas e avenidas, que dão voltas desnecessárias. Não amo a Belo Horizonte que não tem metrôs que atendam a todos. Não amo a Belo Horizonte que suspira com nostalgia pelo Cine Pathé e Café Pérola, sem ter tomado qualquer atitude para torná-los passíveis de funcionamento. Não amo a Belo Horizonte-ovo que impede aquela boa dose de anonimato. Não amo a Belo Horizonte dos que vão há anos no mesmo boteco, na mesma sorveteria e no mesmo clube. Não amo a Belo Horizonte da "tradicional família mineira", do "povo desconfiado" e do "mineiro é tudo pão duro".

Fora isso e mais alguns itens que não constam dessa lista, eu só tenho a desejar a essa "Tubiacanga", "Pequenópolis" e "Belzonte" aniversários mais bacanas (sem show de César Menotti e Fabiano pelo amor de Deus!) porque por mais que eu vá, eu sempre volto. Não consigo ficar sem a Belo Horizonte que eu amo.

5 comentários:

  1. Johnny6:39 PM

    Taí:assino embaixo, uai!!!!

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  2. Anônimo12:38 PM

    Lindo texto! É isso aí!

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  3. carol godoi2:25 PM

    Ufa, desabafou o que eu tento esquecer...

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  4. Anônimo1:08 PM

    caramba, descreveu bem BH. Única!!! (pro bem e pro mal...)

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