domingo, agosto 20, 2006

Áries - 20 agosto 2006 por Oscar Quiroga

A alegria de viver foi soterrada sob o impacto da loucura do mundo, mas está aguardando pelo momento de retornar, vitoriosa, ao palco central, onde se processa esse algo misterioso que você chama destino, sem saber o que isso significa.


Se minha vida nos últimos tempos pudesse ganhar uma definição que dispensasse adjetivos, seria Montanha Russa. Definitivamente. Impressionante como meus dias são sucessões de altos e baixos. Às vezes tem aquela mesmice, o trajeto em linha reta, sobretudo quando eu mais espero que algo mude completamente. Na quarta me emocionei com o Grupo Corpo no Teatro Alfa, mas foi uma alegria solitária porque ninguém pode me acompanhar. Eu que sempre vou ao cinema sozinha e até arrisco-me a sentar sem acompanhante num café para um lanche, não tinha vivido essa experiência. Sem ter com quem comentar as coreografias, o orgulho de ver aquele balé e a minha relação de total admiração pela Companhia, fui surpreendida na saída por um abraço caloroso do Rodrigo Pederneiras. Cheguei em casa leve e feliz. Tive sonhos tão contrários ao cotidiano banal, dominado por uma maratona de trabalho insana e a responsabilidade de pagar contas. A manhã de quinta chegou com uma notícia infeliz: mais um ser adorável se foi antes da hora. Sofrimento de vários lados e sentimento de total impotência. A vida ganhou cores à noitinha, com a chegada da minha amiga querida, Marianinha, para uma breve temporada nessa cidade de temperaturas instáveis. Não consegui ficar livre do trabalho em tempo hábil, como reza a lei de Murphy. Sexta fomos ver o filme mais esdrúxulo de 2006: O Sabor da Melancia. Sabe-se lá por que produções assim ganham Urso de Prata em Berlim. Uma mistura grotesca de musical, nonsense, comédia e pornografia. A frente fria chegou, meu edredon não secou. Sábado e domingo de plantão. Uma passada na Galeria do Rock e, enquanto olhava vitrines com a certeza de que não levaria nada daquilo nos próximos meses, eu torcia para que nada mais me chateasse. Atrasei-me terrivelmente na estréia de O Avarento, com Paulo Autran. O texto divertido fez com que, por alguns instantes, eu esquecesse da falta de grana, da falta de consideração e da falta que fazem as pessoas que eu mais amo. Por sorte, minha companheira inseparável estava comigo. Do contrário eu iria surtar. Sem chuveiro quente, hoje foi o dia do primeiro banho do meu lindo gatinho, Téti. Eu e Marianinha aproveitamos a hospitalidade do Luiz para que ela voltasse limpinha para BH e eu chegasse menos avacalhada na redação do jornal. No tarot, eu diria que estou entre três cartas: A Lua, representando a melancolia, O Enforcado, simbolizando o sacrifício voluntário e A Roda da Fortuna, que ao contrário do que o nome sugere, não é mega sena acumulada. Algo ótimo acontece e logo outro fato péssimo reduz suas esperanças a pó.

E depois de uma passada pelo Blônicas, achei um texto que diz um pouco sobre isso.

Desabafo de uma escritora que sofre
De Tati Bernardi.

Não aguento mais esse papo-furado aqui no Blônicas me pedindo para ser mais leve, mais feliz, mais simples, mais breve, mais prática.
Você suportaria ser demitido pelo seu chefe sem entender os motivos? Você suportaria levar um fora do seu amor sem ouvir pelo menos uma tentativa de explicação, ainda que cheia de eufemismos (poucos tem coragem de dizer a verdade: eu não te amo mais)? O fato é: você suporta ser passivo o tempo todo e não indagar essa vida nunca?
Se o seu paquerinha, ao invés de te levar jantar em um lugar bacana, te falar coisas interessantes e perceber a incrível mulher que você é, apenas te levasse pra casa dele e te comesse, você não ficaria decepcionada?
Se a sua paquerinha, ao invés de se arrumar bem bonita pra você, te tratar como o melhor macho do planeta e te contar que além de malhar 3 horas por dia ela também lê 3 livros por mês, apenas te pedisse pra cuidar dela e pagar a conta, você não ficaria decepcionado?
Sem nossas perfumarias somos apenas humanos banais e quase selvagens. Sim, homem quer comer a mocinha. Sim, mulher quer se sentir protegida e segura (e mulher gosta bastante de dinheiro também). Taí a simplicidade que vocês tanto me pedem… Gostaram dela? Aposto que não.
Ninguém verdadeiramente interessante se limita em ser primata ou ser comum. Tentem ir além de uma bunda e vocês podem descobrir uma super companheira de vida. Tentem ir além dos lugares que todos vão e vocês podem descobrir o seu lugar nesse mundo. Tentem ir além do homem perfeito e vocês vão se divertir muito.
Tentem ver que por trás do sorriso do Coringa (aquele que por dentro era todo corroído por ácidos) existe uma dor, existe uma tristeza, existe algo incomodando o tempo todo.
Não dá pra rir o tempo todo, e eu não to numa fase engraçada, dá licença?
Sim, eu posso ser feliz, eu posso ser leve, eu posso ser engraçada, eu posso ser breve, eu posso ser simples. Mas aí eu ia ser modelo-manequim-atriz e não escritora! Porra!

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