quinta-feira, agosto 10, 2006

Morte por acidente dá sempre um nó na garganta. Lembro-me de que quando tinha 16 anos e recebi a notícia que um amigo de 18, de quem eu gostava bastante diga-se de passagem, nem chegou a dar entrada no hospital, após uma batida violenta entre carros na estrada. Outros dois jovens da mesma idade estavam com ele.
Ernesto era filho da Rose, uma grande amiga da minha família e uma pessoa tão maravilhosa que me considero quase como uma filha e o sentimento é recíproco. Nós dois nos conhecíamos desde crianças, tínhamos várias afinidades, preferíamos as mesmas bandas, admirávamos nossas mães, que muitas vezes não tiveram grandes contribuições de nossos pais para nos criar...

Era estranho que nos víamos eventualmente em algumas épocas e com mais freqüência em outras. Na prática, não éramos da mesma turma, mas sempre passávamos horas a fio conversando. Disso eu até hoje me lembro com clareza. Houve um dia, especialmente, que nossas mães comentaram sobre o clima de paquera que pairava sobre nós. Ficamos vermelhos, roxos de vergonha. Nunca trocamos nada além de olhares e silêncios que diziam muito. Era platônico, só que era muito bom porque era leve. Parecia que não tínhamos pressa. E não tínhamos.

Foi a primeira vez que a morte atravessou meus pensamentos de uma forma tão aguda. Porque eu sempre a considerei injusta contra quem fica e sofre. Naquele momento, ela surgia mais do que impiedosa. O que significou a interrupção radical de uma vida que tinha pela frente tantas possibilidades? Não sei responder. Nunca saberei. Foi o velório mais triste em que já estive. Ver uma mãe chorando pelo filho, tremendo e sussurrando: "isso não é natural, eu tinha que ir primeiro". Ver as mães dos outros garotos devastadas e até revoltadas tentando achar um culpado por tudo aquilo foi muito duro.

Depois daquele dia, perdi outras pessoas queridas. Algumas delas insubstituíveis, como a minha avó Celinha. Por mais estranho que pareça, descobri que, a exemplo do amor, a dor e a perda têm graus mais e menos elevados. Em alguns casos, e mesmo com muito pesar, sentimos um certo alívio se a morte leva alguém que ficou numa cama de hospital por meses a fio ou, ainda, se a vida que lhe restasse tivesse que ser vegetativa, como aconteceria com meu pai, diante de suas ínfimas possibilidades de estar entre nós.

Eu não gosto da morte. Sinceramente, queria ser mais espiritualizada para poder suportar suas visitas desnecessárias ou, ao menos, saber como reagir. Ontem, ela levou uma amiga de 33 anos. Mais um acidente de carro e mais uma pessoa que não teve a chance de curtir os amigos, a família. Renatinha sequer formou a sua. Não se casou, não teve um filho, não escreveu um livro e não sei se já plantou uma árvore.

Diante do fato, as mesmas perguntas e outras novas: será que a vida que levo poderia ser mais colorida? Para que me desdobro em mil trabalhando mais e mais? Minhas escolhas estão certas? Pode soar banal, clichê, eu sei, no entanto, tudo passa tão rápido e não há mesmo garantias de que um dia eu estarei bem velhinha olhando para trás com a constatação de que a vida que levei foi ótima e valeu a pena.

Por isso, não dei brecha para o baixo astral. Comemorei a vida de um amigo que mora no coração, o Igor. Do Exquisito fomos ao D-Edge. Fiquei acordada até altas horas como não fazia há tempos. Dormi pouco. Mesmo assim, hoje acordei me sentindo ótima.

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