segunda-feira, setembro 05, 2005

Para o meu pai

Depois de um dia terrível ontem no hospital, lutando mais uma vez para viver, meu pai se foi. Logo cedo minha tia ligou. E eu e minha irmã ficamos aliviadas, pois a mínima chance que ele teria seria um pesadelo: ficar em estado vegetativo, com o sistema neurólogico todo comprometido. E por mais que a gente queira que as pessoas que a gente ama vivam, essa não seria a forma de meu pai viver. Não ele. Meu pai trabalhava com criação e era tão ativo que nem os vários derrames tiraram dele a vontade de dirigir. Os outros vários infartos também não o assustaram a ponto de viver uma vida monástica. E quem pode julgar isso? Viver segundo as próprias regras foi uma opção dele.

Meu pai e eu nos afastamos por um tempo, porém antes que fosse tarde, Deus lançou sua caneta em nossas linhas tortas, para que nos falássemos enquanto havia lucidez. A última frase do meu pai foi: "eu te amo, minha filha". E naquela tarde de domingo, em meio a tanta tristeza e ansiedade, minha tia Sueli disse que ele falou que o dia em que fui vê-lo, pela última vez, foi o dia mais feliz de sua vida. O irônico é que ontem mesmo ele estava bem e havia comentado com minhas tias que iríamos fazer uma visita. No sábado a tarde pensei no meu pai e ainda no domingo, horas antes de receber o telefonema da Uiara chorando.

Minha mãe, com sua sabedoria de sempre, disse que agora eu só tenho que guardar as boas lembranças até porque eu e meu pai já resolvemos nossas diferenças, mesmo que silenciosamente. Então eu fico aqui chorando e puxando os arquivos da memória...

Meu pai, aquele cara teimoso, que partiu aos 56 anos, tinha o costume de me chamar de flor de laranjeira e chamava a Uiara de flor de manacá. Foi o primeiro homem que me mandou flores, inclusive. Justo na época em que eu era uma adolescente gordinha que achava que morreria encalhada. Foi do meu pai que eu herdei os cachos, o jeito passional e implicante. Herdei também a criatividade, o gosto pela cozinha e a incapacidade de administrar minhas contas.

Ele me buscava em festas super tarde, bem depois da meia-noite porque achava que eu tinha mais era que aproveitar. Me dava livros ao invés de brinquedos e pouquíssimas broncas. Aliás, meu pai era dado a lições pouco ortodoxas. Deixou que eu enfiasse os dedos na tomada para entender limites e me cortou de um comercial que ele fez - e que estavam todos os meus amiguinhos - porque eu fiz uma pirraça homérica. Foi também com meu pai que eu tomei meu primeiro copo. Eu tinha uns 13 anos quando ele levou para casa um Keep Cooler. Me senti super adulta na ocasião.

Com o meu pai vi que homem chora sim e isso não é nenhum absurdo. Muita coisa fazia com que ele derramasse lágrimas, assim como eu: uma música, um jogo de futebol, a minha formatura. Ele chorou quando me viu pela primeira (todos os anos contava que no dia 05 de abril de 1977, a emoção foi tanta que meu avô Nunzio, pai dele, até bateu o carro) e pela última vez.

Agora a gente empatou porque minha cota de choro sobrou para a despedida. Eu só posso dizer uma única coisa, e eu sei que meu pai vai entender: "Vai com Deus porque seu 'agarradinho' vai ficar bem".

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